Entrevistas

Rodson Luiz Lopes, Presidente da ABRASI

Entrevista veiculada na edição 98 – Julho-Agosto- Prefeitos & Gestões

A iluminação pública passou por uma profunda transformação nos últimos anos, deixando de ser apenas um serviço de manutenção para se tornar um componente estratégico das cidades inteligentes. Como a ABRASI avalia essa evolução e qual foi o papel das empresas do setor nesse processo?

Rodson -A iluminação pública está sempre em transformação, principalmente em virtude da permanente evolução tecnológica das fontes de luz artificiais. No entanto, a iluminação de ruas, avenidas e demais logradouros públicos, é um serviço essencial, pois se constitui num importante fator para melhoria da qualidade de vida dos munícipes.

Por sua vez, a infraestrutura física dos parques de iluminação pública, notadamente postes, suportes e luminárias, se constituem numa opção natural para agregar outras tecnologias, tais como sistemas de telegestão, sensores e câmeras de monitoramento, elementos fundamentais para tornar as cidades inteligentes.

Nesse contexto, a ABRASI, entidade que congrega as principais empresas do setor no Brasil, e que em junho próximo passado completou 15 anos de atuação, tem participado ativamente dessa evolução, em particular, na contribuição para o aperfeiçoamento normativo e regulatório, e na articulação dos diversos agentes, com vistas à modernização tecnológica e à melhoria da prestação dos serviços.

A modernização dos parques de iluminação tem avançado em diversas regiões do país, especialmente com a adoção da tecnologia LED. Na avaliação da associação, quais resultados mais expressivos já podem ser observados para os municípios e para a população?

Rodson – A utilização do LED na iluminação pública, além de tornar as cidades iluminadas de forma mais eficiente, reduz as despesas com energia elétrica, pois possuem maior vida útil e menores custos operacionais em relação às luminárias convencionais.

Assim, o que se observa hoje no Brasil é o significativo avanço no uso das luminárias a LED, em todas as regiões do país, em razão dos benefícios citados, e também porque a curva de preços dessa tecnologia tem sido decrescente, possibilitando o acesso dos municípios de pequeno porte.

Apesar dos avanços, muitos municípios ainda enfrentam dificuldades para modernizar seus sistemas de iluminação pública. Quais são hoje os principais desafios técnicos, operacionais, regulatórios e financeiros para ampliar essa transformação em todo o Brasil?

Rodson – Acreditamos que os principias desafios para modernizar e ampliar os sistemas de iluminação pública no Brasil se concentram nas dificuldades financeiras e operacionais de diversos municípios. Para se ter uma ideia, a ABRASI publicou, em 2025, o Guia de orientação aos municípios para implantação, uso responsável e criação de fundo gestor da COSIP, em que se destaca que mais de mil municípios (cerca de 20% do total) ainda não instituíram a arrecadação desse tributo, constitucionalmente destinado ao custeio, a expansão e a melhoria do serviço de iluminação pública e de sistemas de monitoramento para segurança e preservação de logradouros públicos.

As restrições financeiras e orçamentárias desses municípios, e a ausência de pessoal tecnicamente capacitado para elaborar estudos e projetos adequados para licitação, se constituem nas principais barreiras para ampliação e modernização dos parques de iluminação pública no Brasil.

O modelo de concessões e parcerias público-privadas vem impulsionando investimentos em iluminação pública. Como a ABRASI avalia a evolução desse modelo e quais lições podem ser compartilhadas com municípios que ainda pretendem estruturar seus projetos?

Rodson – É inegável que as parcerias público-privadas (PPPs) no setor de iluminação pública têm sido bem-sucedidas. Até 2025, os dados revelam que foram firmados 146 contratos para modernização de cerca de cinco milhões de pontos luminosos, abrangendo 173 municípios. Estima-se que esses contratos totalizam investimentos de cerca de 32 bilhões de reais. Esses números fantásticos comprovam a pujança das PPPs no segmento.

É oportuno ressaltar que o programa de estruturação e modelagem de PPPs desenvolvido pela Caixa Econômica Federal (CEF) em conjunto com Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do Governo Federal, têm sido os principais responsáveis pelos avanços das PPPs de iluminação pública no Brasil.

Portanto, recomenda-se que os municípios que tenham interesse nesse programa, em que após a modelagem, o projeto é levado à leilão na Bolsa de Valores B3, e cujos investimentos são realizados pelo parceiro privado, entrem em contato com a CEF, a fim de que possam conhecer as regras e decidir sobre a participação.

A iluminação pública tem se consolidado como uma plataforma para diversos serviços urbanos, como monitoramento, conectividade, mobilidade e Internet das Coisas (IoT). Como as empresas associadas estão se preparando para atender essa nova realidade das cidades inteligentes?

Rodson – No âmbito da ABRASI, diversas empresas já estão preparadas para competir nesse novo cenário. O primeiro passo da Associação foi o de promover uma série de palestras abrangendo assuntos regulatórios, normativos e tecnológicos atinentes a essa temática.

Num segundo momento, as próprias empresas associadas, com o apoio da ABRASI, têm mapeado as oportunidades de mercado e identificado possibilidades de parcerias, haja vista a diversificação de serviços e tecnologias inerentes a essa ampla plataforma.

Muitos especialistas afirmam que os postes de iluminação serão uma das principais infraestruturas das smart cities. Na visão da ABRASI, quais novos serviços poderão ser incorporados a essa rede, além da iluminação propriamente dita?

Rodson – Como citado no início, a infraestrutura da iluminação pública se constitui num elemento natural para o desenvolvimento das smart cities. Há quem afirme que os postes de iluminação pública são considerados a “coluna vertebral” das cidades inteligentes, porque já possuem ampla cobertura geográfica e suportam a rede elétrica de distribuição.

Entretanto, é preciso ter em mente que o conceito de cidade inteligentes é bastante abrangente e envolve as diversas áreas de atuação do munícipio, desde a saúde, à segurança pública. No caso da iluminação pública, sistemas de monitoramento inteligente, sistemas de Wi-Fi público, sistemas de contagem e controle de tráfego, e sistemas de monitoramento ambiental e de risco, são alguns exemplos de novos serviços que podem ser, e já estão sendo incorporados.

A iluminação adaptativa, capaz de ajustar automaticamente a intensidade da luz conforme o fluxo de veículos, pedestres ou condições climáticas, já é uma realidade em alguns países. Essa tecnologia tem potencial para se tornar comum no Brasil? Quais benefícios ela pode oferecer?

Rodson – Há várias décadas a iluminação adaptativa vem sendo utilizada em vários países. No Brasil, embora já houvesse alguns casos concretos, somente em 2022, a partir da revisão NBR 5101 – Iluminação Viária – Procedimentos, o assunto passou a ser normatizado, com o estabelecimento de critérios técnicos e de segurança para sua adoção.

De acordo com a NBR 5101, iluminação adaptativa (ou dimerização) é um termo utilizado para caracterizar as alterações temporárias na intensidade da iluminância ou luminância em um sistema de iluminação, em função de mudanças no volume de tráfego de veículos e de pedestres, condições ambientais ou outros parâmetros. Entre os seus benefícios, destacam-se a redução de custos de energia elétrica e o controle da intensidade da luz de forma inteligente.

De que forma tecnologias como inteligência artificial, computação em nuvem, gêmeos digitais (digital twins), manutenção preditiva e plataformas de gestão integrada poderão otimizar a operação dos sistemas de iluminação pública e reduzir custos para os municípios?

Rodson – A inteligência artificial já está incorporada em diversos serviços das pessoas e da tecnologia. No caso dos sistemas de iluminação pública, a IA pode contribuir para a dimerização inteligente, ou seja, no ajuste do fluxo luminoso em tempo real com base no fluxo de pedestres, tráfego de veículos e luminosidade natural.

Pode auxiliar na previsão de demanda, ao antecipar picos de consumo de energia e otimizar o uso da rede de distribuição de energia elétrica. Já a computação em nuvem é essencial para centralizar, armazenar e processar grandes volumes de dados de milhares de pontos de iluminação de forma mais segura, sem a necessidade de investimentos vultosos em servidores físicos locais.

No caso dos gêmeos digitais, sua importância é a possibilidade de criação de uma réplica digital com precisão de toda a rede de iluminação pública do município para testar cenários e expansões, e na avaliação do efeito de novas construções ou mudanças viárias na iluminação, antes da implementação das alterações físicas.

Enfim, essas tecnologias numa plataforma integrada, centraliza a gestão operacional, diminui o tempo de resposta às ocorrências e reduz custos.

Olhando para a próxima década, como o senhor imagina a iluminação pública nas cidades brasileiras? Quais tecnologias deverão estar consolidadas e qual será o papel dessa infraestrutura na construção de cidades mais inteligentes, sustentáveis, seguras e conectadas?

Rodson -Acreditamos que a iluminação pública nas cidades brasileiras se transformará num dos principais sistemas da infraestrutura urbana. Nesse horizonte, poderemos testemunhar a universalização da telegestão com as luminárias sendo controladas remotamente em tempo real; o LED inteligente, com ajuste automático de brilho por inteligência artificial; postes equipados com detectores de fumaça, chuva e ruído; postes solares autônomos para regiões sem rede elétrica; conectividade ampliada por postes que servirão para abrigar antenas para o sinal de 5G e 6G; câmeras nos postes monitorando o fluxo de veículos em tempo real, e sensores luminosos indicando vagas públicas livres nas vias públicas.

Estes são apenas alguns exemplos que vislumbramos como sendo papel da infraestrutura da iluminação para próxima década na construção de cidades mais inteligentes, sustentáveis, seguras

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