Entrevistas

Solange Ribeiro, Presidente da ABDIB

Foto cedida pelo entrevistado

A infraestrutura urbana tem assumido um papel cada vez mais relevante na agenda de desenvolvimento das cidades brasileiras. Na avaliação da ABDIB, qual é a importância da modernização da iluminação pública dentro desse processo de transformação urbana?

A infraestrutura urbana é a base sobre a qual as cidades crescem, atraem investimentos e melhoram a qualidade de vida da população. Hoje, ela vai muito além da sua função tradicional e passou a ter papel central na competitividade, na sustentabilidade e na capacidade dos municípios de responder aos desafios do futuro.

Quando falamos em modernização urbana, estamos falando de um conjunto de ações que envolve planejamento, ordenamento do território e investimentos em áreas como mobilidade, saneamento, iluminação pública e conectividade. Tudo isso contribui para cidades mais eficientes, organizadas e preparadas para acompanhar as transformações tecnológicas e sociais.

Nesse cenário, a iluminação pública ganha uma importância especial. Por estar presente em praticamente toda a cidade, ela pode servir como suporte para novas aplicações, como monitoramento urbano, conectividade, sensoriamento e serviços digitais. Ou seja, deixa de ser apenas um serviço essencial para se tornar um importante instrumento de modernização da gestão urbana e de melhoria da experiência do cidadão.

O Brasil tem ampliado o número de concessões e parcerias público-privadas em iluminação pública. Como a ABDIB avalia a evolução desse modelo e quais resultados já podem ser observados nos municípios que adotaram esse formato de gestão?

A experiência brasileira com concessões e PPPs de iluminação pública tem mostrado resultados bastante positivos. O modelo permitiu acelerar investimentos, modernizar parques de iluminação e trazer mais eficiência à gestão de um serviço que está diretamente relacionado à qualidade de vida nas cidades.

Os municípios que seguiram esse caminho vêm registrando ganhos importantes, como redução do consumo de energia, substituição de equipamentos antigos por tecnologia LED, melhoria dos padrões de manutenção e maior percepção de segurança nos espaços públicos.

Um aspecto interessante é que os projetos mais recentes já não se limitam à troca de luminárias. Eles começam a incorporar recursos tecnológicos que ampliam as possibilidades de uso dessa infraestrutura, criando bases para iniciativas de conectividade, monitoramento e gestão inteligente da cidade.

A iluminação pública passou a ser considerada uma infraestrutura capaz de integrar serviços como conectividade, monitoramento urbano e Internet das Coisas (IoT). Como essa mudança de paradigma pode contribuir para acelerar a implantação das cidades inteligentes no país?

A iluminação pública possui uma característica que poucas infraestruturas urbanas têm: sua presença em praticamente todos os bairros e vias da cidade. Isso cria uma oportunidade única para a instalação de tecnologias que apoiem a gestão municipal.

Os postes podem receber sensores, câmeras, equipamentos de comunicação e outros dispositivos capazes de gerar informações relevantes para áreas como mobilidade, segurança, meio ambiente e defesa civil. Com isso, os gestores passam a ter mais informações para planejar ações e tomar decisões.

Além disso, como essa rede já existe, os municípios conseguem implantar novas soluções de maneira mais rápida e com menor custo. É por isso que a iluminação pública tem sido cada vez mais considerada uma porta de entrada para projetos de cidades inteligentes.

 Apesar dos avanços, muitos municípios ainda enfrentam dificuldades para estruturar projetos de modernização da iluminação pública. Quais são hoje os principais entraves para ampliar os investimentos nesse setor?

O Brasil já conta com bons exemplos de modernização da iluminação pública, mas ainda existem desafios importantes, principalmente para os municípios de menor porte.

Uma das principais dificuldades está relacionada à capacidade técnica e institucional das administrações locais. Estruturar projetos, desenvolver estudos, definir indicadores de desempenho e conduzir processos licitatórios exige conhecimentos especializados que nem sempre estão disponíveis.

Também há limitações financeiras e dificuldades para acessar mecanismos de apoio à estruturação dos projetos. Além disso, ainda é comum que a iluminação pública seja tratada apenas como uma agenda de eficiência energética, sem que seu potencial para apoiar conectividade, monitoramento e outros serviços urbanos seja plenamente explorado.

Outro desafio é promover maior integração entre as diferentes áreas da gestão pública. Muitas vezes, mobilidade, tecnologia, segurança e meio ambiente trabalham de forma isolada, quando poderiam atuar de forma coordenada para ampliar os benefícios dos investimentos realizados.

A previsibilidade regulatória e a segurança jurídica são fatores frequentemente apontados como essenciais para atrair investimentos em infraestrutura. Como a ABDIB avalia o ambiente brasileiro para novos projetos de iluminação pública e smart cities?

A iluminação pública já se consolidou como um segmento relevante para o investimento privado, especialmente por meio de concessões e PPPs. Os resultados observados nos últimos anos demonstram que existe um modelo capaz de combinar modernização da infraestrutura, melhoria dos serviços e ganhos de eficiência.

Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que a iluminação pode ser utilizada para muito mais do que iluminar ruas e espaços públicos. Sua abrangência permite o desenvolvimento de aplicações voltadas à conectividade, monitoramento urbano, mobilidade e gestão municipal.

Para ampliar esse mercado, é fundamental preservar um ambiente regulatório estável, com segurança jurídica e regras previsíveis. Também será importante fortalecer a capacidade técnica dos municípios e estimular projetos que integrem infraestrutura urbana e tecnologia, ampliando o potencial de transformação das cidades.

A infraestrutura urbana precisa responder simultaneamente aos desafios da eficiência energética, da sustentabilidade e da qualidade dos serviços públicos. Como a iluminação pública pode contribuir para atender essas três demandas de forma integrada?

Poucas iniciativas urbanas conseguem reunir tantos benefícios em uma única política pública quanto a modernização da iluminação pública.

A adoção de luminárias LED reduz o consumo de energia, diminui custos de operação e manutenção e contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Isso gera benefícios ambientais e também alivia a pressão sobre os orçamentos municipais.

Além dos ganhos energéticos, uma iluminação de melhor qualidade aumenta a sensação de segurança, melhora a utilização dos espaços públicos e proporciona um serviço mais eficiente para a população.

Quando associada a recursos de monitoramento e gestão, essa mesma infraestrutura pode apoiar diferentes serviços urbanos, ampliando o retorno dos investimentos realizados e contribuindo para cidades mais modernas, eficientes e preparadas para os desafios das próximas décadas.

 O avanço das cidades inteligentes depende da articulação entre governos, iniciativa privada, instituições financeiras e entidades setoriais. Qual é o papel da cooperação entre esses diferentes atores para viabilizar projetos mais inovadores e sustentáveis?

Nenhum projeto urbano transformador acontece de forma isolada. É preciso que o setor público, os investidores, as empresas e as instituições de financiamento atuem de forma alinhada desde a concepção até a execução dos projetos.

Na nossa visão, alguns fatores são decisivos: planejamento de longo prazo, segurança jurídica, previsibilidade regulatória, boa governança e uma divisão equilibrada de responsabilidades e riscos. Quando essas condições estão presentes, os projetos ganham credibilidade e conseguem atrair mais investimentos.

Também é fundamental que as diferentes áreas dos serviços públicos trabalhem de forma integrada. Infraestrutura, mobilidade, segurança, tecnologia e meio ambiente não podem mais ser planejados separadamente. As cidades que conseguem conectar essas agendas tendem a obter melhores resultados e gerar mais valor para a população.

A transformação digital vem modificando a forma de planejar e operar a infraestrutura urbana. Como a ABDIB enxerga a incorporação de tecnologias como inteligência artificial, análise de dados, sensores e conectividade na gestão da iluminação pública?

Essas tecnologias têm potencial para mudar a forma como a infraestrutura urbana é operada. No caso da iluminação pública, elas permitem sair de um modelo reativo para outro muito mais inteligente e eficiente.

Com sensores, conectividade e análise de dados, é possível acompanhar o funcionamento da rede em tempo real, identificar falhas mais rapidamente, otimizar a manutenção e reduzir desperdícios de energia. Isso melhora a qualidade do serviço e reduz custos para os municípios.

Ao mesmo tempo, a rede de iluminação pode apoiar outras funções importantes da cidade, como monitoramento urbano, gestão do trânsito, acompanhamento de indicadores ambientais e apoio a situações de emergência. O grande valor está justamente nessa capacidade de gerar informações que ajudam os gestores a tomar decisões melhores.

Considerando a experiência acumulada pela associação em diferentes segmentos da infraestrutura, quais boas práticas observadas em outras áreas poderiam ser aplicadas para acelerar a modernização da iluminação pública nos municípios brasileiros?

Há muitas lições que podem ser aproveitadas. O setor elétrico mostrou a importância da digitalização e da gestão baseada em dados. O saneamento avançou com contratos estruturados em metas e indicadores de desempenho. Já as telecomunicações demonstraram como a conectividade pode viabilizar novos serviços e aplicações.

O principal aprendizado é que a modernização não depende apenas de tecnologia. Ela exige planejamento, estabilidade regulatória e principalmente modelos de governança consistentes que assegurem incentivos com foco na qualidade.

Pensando na próxima década, quais são as perspectivas da ABDIB para a infraestrutura urbana brasileira? De que maneira a iluminação pública poderá consolidar-se como um elemento estratégico para promover desenvolvimento econômico, sustentabilidade, segurança e melhor qualidade de vida nas cidades?

A tendência é que infraestrutura e tecnologia caminhem cada vez mais juntas. As cidades vão utilizar mais dados, conectividade, automação e inteligência artificial para melhorar a gestão dos serviços públicos e responder com mais eficiência às demandas da população.

Nesse cenário, a iluminação pública deve ganhar protagonismo por ser uma das infraestruturas mais presentes no ambiente urbano. Ela poderá servir de base para aplicações ligadas à segurança, mobilidade, conectividade e monitoramento ambiental.

Nos próximos anos, ela será cada vez mais vista como um ativo estratégico para o desenvolvimento urbano, contribuindo para cidades mais eficientes, seguras, sustentáveis e preparadas para os desafios do futuro.

Entrevista publicada na revista Prefeitos & Gestões -Edição 98 – Julho-Agosto 26

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