Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Saída de governadores para disputar outros cargos abre espaço para a posse dos vices, que ganham visibilidade e ampliam poder para a sucessão; veja o perfil de quem deve assumir.
Congresso em Foco
13/3/2026 7:00
As eleições de 2026 já começaram a redesenhar o mapa de poder nos Estados. Até 4 de abril, prazo final para a desincompatibilização de governadores que pretendem disputar outro cargo, ao menos 13 unidades da federação devem trocar de comando. Na maior parte dos casos, os vices herdarão o posto com o aval político dos atuais chefes do Executivo e já como nomes competitivos para a sucessão.
Mais do que uma substituição protocolar, a mudança oferece uma vantagem estratégica a esses futuros ocupantes dos palácios. Ao assumir a máquina estadual nos meses que antecedem a eleição, eles ampliam a visibilidade, ganham poder de articulação e passam a ocupar posição privilegiada na montagem dos palanques. Em vários Estados, a tendência é que cheguem ao cargo não apenas como substitutos, mas como candidatos do grupo governista à continuidade do projeto político local.

O rearranjo será amplo. Das 27 unidades da federação, apenas nove devem ter governadores aptos a disputar a reeleição. Nos demais casos, a sucessão é inevitável, o que torna ainda mais relevante o perfil de quem assumirá o comando dos Estados nas próximas semanas. A troca, portanto, não antecipa apenas uma mudança administrativa: ela reposiciona forças regionais e entrega aos novos governadores uma vitrine decisiva para 2026.
Entre os governadores que devem deixar o cargo, parte mira uma vaga no Senado e parte se movimenta em torno de um projeto presidencial. Hoje, esse campo é representado de forma mais clara por quatro nomes: Ronaldo Caiado (PSD-GO), Ratinho Junior (PSD-PR), Eduardo Leite (PSD-RS) e Romeu Zema (Novo-MG). Nos demais casos, a principal rota política é o Senado.
Duas eleições para governador no mesmo ano
Na maior parte do país, a sucessão seguirá a linha normal, com o vice assumindo a chefia do Executivo após a saída do titular. Em dois Estados, porém, o roteiro tende a ser diferente. Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro podem realizar ainda neste ano eleição indireta nas assembleias legislativas para escolher um governador-tampão até janeiro de 2027. Nesses casos, o problema não é apenas a eventual renúncia do titular, mas a inexistência de um vice disponível para completar o mandato.
No Rio Grande do Norte, essa hipótese ganhou força depois que o vice-governador Walter Alves informou que não pretende assumir o governo caso Fátima Bezerra deixe o cargo para disputar o Senado. Walter quer disputar o mandato de deputado estadual. No Rio de Janeiro, o quadro é semelhante, embora por outro motivo: o então vice-governador Thiago Pampolha deixou o cargo em 2025 para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. Se Cláudio Castro renunciar para disputar o Senado, haverá dupla vacância no Executivo fluminense, e a escolha do substituto caberá à Assembleia Legislativa. A expectativa é que as assembleias escolham os governadores-tampões em até 30 dias após a saída dos titulares.

Legislação eleitoral
O pano de fundo dessa dança das cadeiras é a legislação eleitoral. Governadores que pretendem disputar cargo diferente do atual precisam deixar o mandato até seis meses antes do primeiro turno. Ao mesmo tempo, a jurisprudência do Supremo consolidou o entendimento de que, em caso de dupla vacância no último biênio, a substituição deve ocorrer por eleição, conforme a regra local, e não por simples sucessão automática.
Em princípio, apenas cinco governadores não devem disputar cargo em 2026: os de Alagoas, Amazonas, Maranhão, Rondônia e Tocantins.
Os perfis dos vices que vão assumir revelam trajetórias diversas. Há ex-senadores, parlamentares experientes, dirigentes empresariais, gestores técnicos e nomes mais jovens que despontam como apostas para o futuro de seus Estados. Em comum, todos chegam ao posto num momento em que a cadeira de governador deixa de ser apenas uma função eventual e passa a funcionar também como vitrine política para 2026.
Veja quem são os vices que vão herdar os governos com a renúncia dos titulares nas próximas semanas:
Acre: Mailza Assis, a vice que volta ao centro do poder
No Acre, quem assumirá o governo é uma política que transitou pela administração municipal, pelo Senado e pela área social do Executivo estadual. Mailza Assis (PP), de 49 anos, chegou à vice-governadoria em 2022, na chapa de Gladson Cameli, e atualmente também comanda a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos. Ela é candidata à sucessão de Gladson, com o apoio do governador, que deve concorrer ao Senado.
Nascida em Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul, Mailza Assis da Silva é formada em Pedagogia, tem MBA em Políticas Públicas e é mãe de três filhos. Entrou na vida pública em 2009, como secretária municipal de Administração de Senador Guiomard. Depois, assumiu a Assistência Social do município, onde lançou iniciativas voltadas ao atendimento direto da população, como o Prefeitura no Bairro e o Natal Feliz.
Sua projeção estadual veio em 2014, quando foi eleita primeira suplente de senadora na chapa de Gladson Cameli. Com a eleição dele para o governo do Acre, assumiu o mandato no Senado em 2019. Desde então, consolidou espaço próprio na política acreana, embora mantenha laços estreitos com o grupo do governador: é casada com Madson Cameli, primo de Gladson.
Distrito Federal: Celina Leão, da Câmara ao comando do Buriti
No Distrito Federal, Celina Leão (PP) chega ao comando do Buriti depois de uma trajetória marcada por forte protagonismo no Legislativo local. Vice-governadora desde 2023, ela já foi deputada distrital, deputada federal, presidente da Câmara Legislativa e secretária de governo.
Administradora de empresas, Celina Leão Hizim Ferreira nasceu em Goiânia, em 2 de março de 1977, e iniciou a carreira eleitoral em 2010, ao se eleger deputada distrital. Reeleita em 2014, assumiu a presidência da Câmara Legislativa no ano seguinte e se firmou como uma das figuras mais conhecidas da política brasiliense.
Antes de chegar à vice-governadoria, cumpriu mandato como deputada federal entre 2019 e 2022 e se licenciou temporariamente do cargo para assumir a Secretaria de Esporte e Lazer no governo Ibaneis Rocha. Em janeiro de 2023, ganhou projeção nacional ao assumir interinamente o governo do DF durante o afastamento de Ibaneis após os ataques de 8 de janeiro. A experiência reforçou seu peso político na sucessão local. Disputará o governo com o apoio de Ibaneis, que deve buscar o Senado.
Espírito Santo: Ricardo Ferraço, vice de dois governadores
Ricardo Ferraço (MDB) assume o governo do Espírito Santo depois de ter sido vice de dois governadores: Paulo Hartung (2007-2011) e Renato Casagrande (2023-2026).
Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, em 17 de agosto de 1963, Ferraço começou cedo: foi eleito vereador em 1982. Depois, cumpriu dois mandatos como deputado estadual, presidiu a Assembleia Legislativa e chefiou a Casa Civil do governo capixaba. Em 1998, chegou à Câmara dos Deputados como o mais votado do Estado.
Em 2010, foi eleito senador. Retornou ao MDB e, em 2022, foi eleito vice-governador na chapa de Renato Casagrande. Filho do ex-prefeito e ex-deputado Theodorico Ferraço, carrega um sobrenome tradicional da política capixaba. É o candidato de Casagrande à sua sucessão.
Goiás: Daniel Vilela, herdeiro político que chega ao poder
Em Goiás, Daniel Vilela (MDB) assumirá o governo levando consigo um sobrenome de peso e uma trajetória construída em etapas, da política municipal à vice-governadoria. Filho do ex-governador e ex-senador Maguito Vilela, soube transformar herança política em capital próprio e hoje ocupa posição central no tabuleiro goiano.
Nascido em Jataí, em 23 de outubro de 1983, Daniel é advogado, pós-graduado em gestão pública e presidente estadual do MDB. Antes de entrar para a vida pública, tentou carreira no futebol profissional e passou por clubes como Goiás e Atlético Goianiense.
Na política, foi vereador em Goiânia, deputado estadual e deputado federal. Em 2018, disputou o governo de Goiás e terminou em segundo lugar. Quatro anos depois, compôs chapa justamente com Ronaldo Caiado, adversário daquela eleição, e foi eleito vice-governador. A aliança selou sua ascensão a um novo patamar e o colocou no centro das articulações para o futuro político do Estado. É apoiado por Caiado, que tenta viabilizar sua candidatura a presidente pelo PSD.
Mato Grosso: Otaviano Pivetta, o nome do agro no comando do Estado
Otaviano Pivetta (Republicanos) chega ao comando de Mato Grosso com a imagem de gestor ligado ao agronegócio e ao interior produtivo do Estado. Empresário e produtor rural, construiu a carreira política a partir de Lucas do Rio Verde, município que ajudou a transformar em símbolo da expansão econômica mato-grossense.
Nascido em Caiçara, no Rio Grande do Sul, em 10 de maio de 1959, Pivetta foi três vezes prefeito de Lucas do Rio Verde. Governou a cidade em diferentes momentos e encerrou a última gestão, em 2016, com alta aprovação. Também foi deputado estadual, ampliando sua influência na política local.
Em 2018, chegou à vice-governadoria ao lado de Mauro Mendes. Reeleito em 2022, já filiado ao Republicanos, consolidou-se como uma das principais figuras do grupo no poder. Sua trajetória combina experiência administrativa, trânsito político e forte identificação com o setor mais dinâmico da economia estadual. Concorre à sucessão estadual com apoio de Mendes, que postula o Senado.
Minas Gerais: Mateus Simões, o herdeiro político de Zema
Em Minas Gerais, Mateus Simões (PSD) encarna a nova geração da direita liberal e já é tratado como herdeiro político de Romeu Zema. Vice-governador do Estado, construiu sua ascensão com rapidez, combinando discurso ideológico, capacidade de articulação e presença crescente no centro da máquina pública.
Nascido em Gurupi, no Tocantins, em 9 de março de 1981, mudou-se ainda criança para Belo Horizonte, onde fez carreira como advogado, professor e político. Em 2016, elegeu-se vereador da capital pelo Novo, tornando-se o primeiro parlamentar do partido em Minas Gerais. No Legislativo municipal, destacou-se pela defesa do corte de gastos e pela crítica a privilégios no setor público.
Em 2020, deixou a Câmara para assumir a Secretaria-Geral do governo mineiro. No cargo, ampliou sua influência e passou a coordenar áreas estratégicas da gestão. Em 2022, foi escolhido por Zema como companheiro de chapa e eleito vice-governador. Desde então, transformou-se em um dos nomes mais fortes para a sucessão estadual, movimento reforçado por sua recente filiação ao PSD. Até então, era do Novo.
Pará: Hana Ghassan, o nome de confiança de Helder
No Pará, Hana Ghassan (MDB) acumulou a vice-governadoria com a Secretaria Estadual de Planejamento e Administração. No cargo, firmou-se como uma das principais peças da engrenagem do governo Helder Barbalho.
Nascida em Belém, em 16 de janeiro de 1968, Hana Ghassan Tuma é contabilista, auditora fiscal e servidora de carreira da Secretaria da Fazenda. Fez boa parte da trajetória em áreas ligadas à fiscalização, arrecadação e planejamento, ocupando funções como delegada de grandes contribuintes e diretora de fiscalização.
Também teve passagens por gestões municipais, em cargos ligados a finanças, planejamento e infraestrutura, tanto em Ananindeua quanto em Belém. Em 2019, assumiu a Secretaria de Planejamento e Administração do Pará. Em 2022, foi escolhida por Helder Barbalho para compor a chapa da reeleição, vencedora com ampla folga já no primeiro turno. É a aposta de Helder, que tentará o Senado, para a sua sucessão.
Paraíba: Lucas Ribeiro, juventude e sobrenome forte no poder
Na Paraíba, Lucas Ribeiro (PP) simboliza a renovação de uma linhagem política tradicional. Jovem, articulado e herdeiro de um dos grupos mais influentes do Estado, chega ao governo depois de uma trajetória rápida, concentrada sobretudo em Campina Grande.
Nascido em João Pessoa, em 15 de agosto de 1989, é advogado e dirigente do Progressistas em Campina Grande. Filho da senadora Daniella Ribeiro, neto do ex-prefeito e ex-deputado Enivaldo Ribeiro e sobrinho do deputado federal Aguinaldo Ribeiro, cresceu cercado pela política.
Foi eleito vereador de Campina Grande em 2016. Depois, assumiu a Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação. Em 2020, retornou à Câmara e, no mesmo ano, foi eleito vice-prefeito da cidade. Dois anos depois, trocou a política municipal pelo salto estadual ao integrar a chapa de João Azevêdo. O movimento o projetou definitivamente para o primeiro escalão da política paraibana.
Paraná: Darci Piana, do empresariado ao comando do Estado
No Paraná, Darci Piana (PSD) é o exemplo mais claro de alguém que chegou tarde à política eleitoral, mas depois de décadas exercendo influência fora das urnas. Vice-governador desde 2019, levou ao Palácio Iguaçu a experiência acumulada no empresariado e nas entidades de classe.
Nascido em Carazinho, no Rio Grande do Sul, em 24 de dezembro de 1941, é economista, empresário e dirigente classista. Presidiu o Sindicato do Comércio Varejista de Veículos, Peças e Acessórios do Paraná, ajudou a fundar a cooperativa de crédito Sincoocred e comandou o Conselho Deliberativo do Sebrae-PR. Também exerceu a superintendência regional da Companhia de Financiamento da Produção no Estado.
Sua estreia nas urnas ocorreu apenas em 2018, quando já havia migrado do PDT para o PSD e foi eleito vice-governador na chapa de Ratinho Junior. Reeleito em 2022, manteve-se como elo importante entre o governo e o setor produtivo. Licenciado da presidência do Sistema Fecomércio, Sesc e Senac Paraná, carrega para o cargo a imagem de gestor experiente e conciliador. Aos 84 anos, não disputará qualquer cargo em outubro.
Rio Grande do Sul: Gabriel Souza, um quadro jovem no topo do MDB gaúcho
No Rio Grande do Sul, Gabriel Souza (MDB) chega ao governo como um dos principais quadros de sua geração no MDB. Jovem para os padrões da elite política gaúcha, construiu a carreira no Parlamento estadual e se destacou pela capacidade de articulação dentro e fora do partido.
Natural de Tramandaí, Gabriel é médico veterinário de formação, mas fez da política sua principal atividade desde cedo. Em 2014, foi eleito deputado estadual e tomou posse no ano seguinte. No primeiro mandato, ganhou espaço como líder da bancada do MDB e, entre 2016 e 2018, tornou-se líder do governo José Ivo Sartori na Assembleia Legislativa.
Foi reeleito em 2018 como o deputado mais votado do MDB gaúcho. Em 2022, chegou a se lançar como pré-candidato do partido ao governo estadual, mas acabou integrando a chapa vencedora como vice-governador. O emedebista disputará novo mandato em outubro, com apoio de Leite, que disputa com Caiado e Ratinho Junior a indicação do PSD para concorrer a presidente da República.
Roraima: Edilson Damião, da infraestrutura para a chefia do governo
Em Roraima, Edilson Damião (Republicanos) assumirá o governo com um perfil diferente do político tradicional. Engenheiro civil e servidor público, chegou ao topo do Executivo estadual apoiado mais na experiência administrativa do que na projeção eleitoral.
Nascido em Curitiba, em 13 de dezembro de 1977, Edilson Damião Lima fez carreira na área de infraestrutura. Foi assessor no Ministério dos Transportes e, a partir de 2019, assumiu a Secretaria de Infraestrutura de Roraima, posição que ocupou por vários anos e que o aproximou do núcleo político do governador Antonio Denarium.
Em 2022, foi eleito vice-governador na chapa de Denarium. Desde então, ganhou espaço dentro do grupo governista e passou a ser visto como peça relevante na reorganização da sucessão estadual.
Fonte: Congresso em Foco

