Foto Priscila Chéquer – Divulgação
Integração de dados, atenção primária e colaboração entre instituições sustentam o modelo dinamarquês. Envelhecimento populacional e doenças crônicas aproximam os desafios dos dois países
Na Dinamarca, 99% das prescrições enviadas às farmácias e 97% dos encaminhamentos para serviços especializados são eletrônicos, segundo a Healthcare Denmark. Esses números refletem uma transformação construída ao longo de décadas, que combina compartilhamento de informações, fortalecimento da atenção primária, interoperabilidade e colaboração entre governo, universidades, hospitais e empresas.
Essa experiência ganha relevância para o Brasil diante de desafios comuns aos dois países: o envelhecimento da população e a necessidade de organizar o cuidado de pessoas com doenças crônicas. Em escalas e condições socioeconômicas distintas, essas demandas ampliam a importância da prevenção, do acompanhamento contínuo e da integração entre os serviços de saúde.
A aproximação já ocorre por meio de uma cooperação governamental iniciada em 2016 e de parcerias entre empresas dinamarquesas e organizações brasileiras. Essas iniciativas abrem caminhos para adaptar e validar soluções conforme as necessidades das redes pública e privada do Brasil.
Histórico dinamarquês
Um passo importante nessa trajetória foi a criação do registro civil dinamarquês, em 1968. O identificador individual permitiu conectar informações de uma mesma pessoa em diferentes registros. A base nacional de pacientes reúne, desde 1977, dados de internações para tratamento de doenças físicas, formando um histórico que apoia pesquisas e decisões sobre o sistema de saúde.
“Os dados permitem formular políticas de saúde e direcionar investimentos para o desenvolvimento de novas tecnologias e tratamentos”, explica Danilo Guimarães Santos, conselheiro de saúde do Consulado-Geral da Dinamarca.
A digitalização avançou nas décadas seguintes. Em 1994, foi criada a MedCom, organização responsável por desenvolver padrões de comunicação entre os sistemas de saúde. Em 2003, foi lançado o Sundhed.dk, portal nacional que oferece informações e serviços para pacientes e profissionais. Essa estrutura permite compartilhar dados entre hospitais, médicos de família e outros serviços, mesmo quando utilizam sistemas diferentes. De acordo com a Healthcare Denmark, organização que promove internacionalmente o ecossistema dinamarquês de saúde, o portal recebe cerca de 2,3 milhões de visitantes únicos por mês.
A organização do sistema é outro componente deste modelo. Público, universal e financiado principalmente por impostos, o sistema dinamarquês tem a atenção primária como principal porta de entrada. O médico de família acompanha o paciente e faz os encaminhamentos quando necessário. Conforme relatório da Healthcare Denmark de 2023, aproximadamente 90% dos pacientes são atendidos pelo médico de família sem encaminhamento a um especialista. Essa organização se baseia na prevenção e na continuidade do cuidado e busca tornar o uso dos recursos mais eficiente.
A inovação também está ligada à colaboração entre instituições públicas, academia e iniciativa privada, que conecta conhecimento científico, experiência assistencial e capacidade tecnológica para responder às necessidades da população.
“A academia está perto da indústria, está perto do governo, está perto dos hospitais”, afirma Danilo. Segundo ele, a confiança entre as instituições e a população favorece esse ambiente de inovação.

Imagem cedida pela Tamer Comunicação -Foto divulgação
Cooperação em andamento no Brasil
A cooperação setorial estratégica entre os governos brasileiro e dinamarquês atua em duas frentes: digitalização e uso de dados de saúde com a SEIDIGI (Secretaria de Informação e Saúde Digital); e regulamentação de medicamentos e dispositivos médicos com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Iniciada em 2016, reúne autoridades dos dois países, aproximando a Anvisa às instituições dinamarquesas responsáveis por dados de saúde e medicamentos.
O intercâmbio contribuiu para a elaboração da Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 e para o desenvolvimento de um instrumento que avalia a maturidade digital de estados e municípios. Essa avaliação identificou as condições locais para utilizar tecnologias e orientou planos de desenvolvimento e investimentos.
Há muitas semelhanças entre a infraestrutura de dados da Dinamarca e a RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), plataforma do Ministério da Saúde que conecta diferentes sistemas para o compartilhamento padronizado e seguro de informações de saúde. Seu objetivo é permitir que informações produzidas em um serviço sejam utilizadas por outros profissionais e instituições, conforme as regras de acesso, apoiando a continuidade do atendimento.
A oferta de serviços de saúde a populações distantes é outro ponto de aproximação entre os países. Além de uma porção continental, a Dinamarca reúne também mais de 400 ilhas. Segundo Danilo, os desafios de atendimento a essas populações encontram paralelos na dimensão continental do Brasil, que enfrenta desafios como o atendimento às comunidades ribeirinhas da Amazônia e avançou significativamente na implementação da telessaúde. A troca de experiências envolve discutir como a infraestrutura de comunicação e os serviços digitais podem reduzir a necessidade de deslocamentos e viabilizar o acompanhamento dos pacientes.
“As diferenças de território e de condições econômicas são grandes, mas há um desafio comum: fazer o cuidado chegar a quem vive longe dos serviços de saúde. É nesse ponto que podemos trocar experiências sobre conectividade, telemedicina e integração de dados”, afirma.
No Brasil, a aplicação dessas soluções exige considerar as condições de conectividade, a infraestrutura disponível, a capacitação das equipes e a organização das redes pública e privada, para que o atendimento à distância esteja integrado aos demais serviços de saúde.
Empresas: aplicações e estágio de atuação
É nesse contexto que atua a Aliança Dinamarca-América Latina em Saúde, iniciativa liderada pelo Consulado-Geral da Dinamarca para aproximar o ecossistema dinamarquês dos mercados latino-americanos. Com foco em doenças crônicas não transmissíveis e envelhecimento, a Aliança promove a troca de experiências e boas práticas entre gestores públicos, instituições de saúde e empresas.
Entre as participantes estão Radiobotics, RetinaLyze e Dr. Holm, com soluções para diferentes etapas do cuidado e estágios distintos de atuação no Brasil.
A Radiobotics desenvolve soluções de inteligência artificial (IA) para exames de imagem musculoesqueléticos (MSK), projetadas para apoiar a tomada de decisões clínicas. Sua principal solução, o RB Fracture, foi desenvolvida para auxiliar as equipes de emergência e radiologia na detecção altamente precisa de achados relacionados a traumas, incluindo fraturas, luxações, lipo-hemartrose e derrame articular.
A One Laudos, empresa brasileira de diagnóstico médico e telerradiologia, avaliou o RB Fracture para auxiliar em seus exames clínicos. Em uma análise retrospectiva de 912 casos, a solução alcançou 97% de sensibilidade e 96% de especificidade, além de redução de 88% nas fraturas não identificadas em comparação com as avaliações iniciais dos profissionais de saúde. Esses resultados destacam o potencial da IA para ajudar a equipe médica a identificar alterações que poderiam passar despercebidas, apoiar a tomada de decisões clínicas e lidar com a elevada demanda de exames radiológicos, complementando – e não substituindo – a experiência e o conhecimento clínico dos profissionais.
No início de 2026, a Radiobotics se uniu à Medimaps, empresa suíça de tecnologia médica criadora do TBS (Trabecular Bone Score), padrão global na avaliação da microarquitetura óssea. O TBS tem o respaldo de mais de 1,6 mil publicações científicas e é citado em mais de 30 diretrizes clínicas em todo o mundo. No Brasil, aproximadamente 60 centros já utilizam o TBS por meio do TBS Osteo para incorporar a avaliação do risco de fraturas aos exames de densitometria óssea (DXA) de rotina.
Por sua vez, RetinaLyze desenvolve soluções de Inteligência Artificial para a análise automatizada de imagens da retina, apoiando o rastreamento e a priorização de casos de retinopatia diabética, glaucoma e degeneração macular relacionada à idade – doenças que podem levar a uma perda visual significativa e, em alguns casos, irreversível quando não identificadas e tratadas a tempo. No Brasil, atua por meio da NCS Health e vem acumulando experiência prática em diferentes contextos de assistência à saúde com mais de 13 mil análises de retina já realizadas no país. Por meio de parceria com a OFTA, farmacêutica brasileira especializada em oftalmologia, a tecnologia tem sido utilizada em iniciativas de rastreamento de doenças da retina, como uma ação realizada em Candeal, na Bahia. A RetinaLyze também foi avaliada em um projeto-piloto com o Instituto Suel Azambuja, ampliando a experiência com o rastreamento de doenças da retina apoiado por IA no contexto da saúde brasileira.
A experiência acumulada nessas iniciativas reforçou a relevância do rastreamento: uma parcela significativa das pessoas examinadas apresentou alterações que exigiam avaliação oftalmológica complementar. A identificação precoce de casos suspeitos pode facilitar o encaminhamento dos pacientes para diagnóstico e tratamento em tempo oportuno, contribuindo para prevenir a perda visual evitável e a cegueira associadas a condições como a retinopatia diabética e o glaucoma.
Isso é particularmente relevante no Brasil, onde o desafio não se limita à disponibilidade de especialistas, mas também envolve identificar pacientes em risco e encaminhá-los para atendimento oftalmológico no momento adequado. O rastreamento da retina apoiado por IA pode auxiliar a superar essa lacuna, permitindo que a captura de imagens ocorra mais perto dos pacientes, enquanto a análise automatizada contribui para uma triagem padronizada e para a priorização de casos em larga escala. A estratégia brasileira, portanto, está focada na incorporação da inteligência artificial a fluxos de rastreamento de doenças da retina que possam ser ampliados em escala.
Na prevenção e no tratamento da obesidade, a Dr Holm Health combina capacitação e certificação premiadas na Europa com soluções digitais e de telessaúde, oferecendo um modelo de cuidado da obesidade desenvolvido pelo Dr. Jens-Christian Holm no Hospital Universitário de Holbæk, na Dinamarca. Essa abordagem baseada em evidências permite que as equipes de saúde cuidem de pacientes com obesidade e múltiplas complicações com excelência, incluindo controle contínuo da qualidade e resultados reconhecidos internacionalmente, com base em um investimento em saúde altamente competitivo.
Em diversos estudos internacionais revisados por pares, envolvendo milhares de crianças e adolescentes, aproximadamente 75% apresentaram redução do índice de massa corporal (IMC), ajustado por idade e sexo, acompanhada de reduções na hipertensão, na dislipidemia, na apneia do sono e no grau de obesidade dos pais, independentemente da classe socioeconômica e do grau de obesidade. Esses resultados refletem o que se pode esperar quando são oferecidos treinamento adequado e suporte digital. Segundo Danilo, a Dr Holm Health já possui uma parceria no Chile e busca parceiros no Brasil.
Como as parcerias podem avançar
A atuação da Aliança prevê a construção de parcerias locais, a realização de projetos-piloto e a validação das soluções conforme as necessidades brasileiras, além da troca de experiências e boas práticas entre atores públicos e privados dos diferentes sistemas de saúde. Hospitais, municípios, clínicas e operadoras de saúde estão entre os possíveis parceiros. O processo começa pela identificação de um desafio do serviço e pela avaliação de como a tecnologia pode contribuir, seguida de testes com dados e condições locais.
Essa aproximação reúne competências complementares e abre oportunidades de desenvolvimento conjunto. A experiência dinamarquesa em integração de dados e soluções especializadas se soma à capacidade científica brasileira e à experiência de organizar serviços para uma população numerosa e diversa. A colaboração pode gerar conhecimento sobre a aplicação das tecnologias em diferentes contextos e orientar sua ampliação nas redes pública e privada. Nesse caminho, a Aliança busca transformar o intercâmbio em parcerias, viabilizar projetos-piloto e criar condições para incorporar as soluções validadas aos serviços brasileiros.
Danilo ressalta que a incorporação das tecnologias precisa vir acompanhada da capacitação dos profissionais e da orientação aos pacientes. “As equipes devem estar preparadas para utilizar as ferramentas, interpretar seus resultados e integrá-las às decisões clínicas e aos fluxos de atendimento. Os pacientes, por sua vez, precisam compreender como esses recursos participam do cuidado e quais são os próximos passos de seu acompanhamento”. Para ele, é essa articulação entre tecnologia, profissionais e pacientes que pode converter a inovação em acesso, continuidade do cuidado e uso mais eficiente dos recursos.
Fonte:
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