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A 100 dias da eleição, 10 fatores testam a sucessão presidencial

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Pesquisa mostra alto grau de decisão entre eleitores de Lula e Flávio, mas economia, PF, TSE, IA, Trump e palanques ainda podem mexer na disputa.

26/6/2026 | Atualizado às 10:39

A 100 dias do primeiro turno, a sucessão presidencial entra em uma fase em que pesquisas continuam importantes, mas já não explicam sozinhas o tamanho da disputa. O presidente Lula chega à reta final em vantagem, com a máquina do governo, a agenda presidencial e a condição de candidato à reeleição. A direita tenta transformar o voto bolsonarista em candidatura competitiva, mas enfrenta divisões internas, palanques contraditórios e desgaste provocado por investigações. Nada, porém, está decidido.

O cenário é de disputa aberta, mas com sinais de voto cristalizado nos dois principais polos. Pesquisa Indexa divulgada na terça-feira indica que 67% dos entrevistados dizem que o voto já está definido. Outros 25% afirmam que ainda podem mudar de escolha, e 8% não souberam ou não opinaram.

Quem subirá a rampa do Planalto em 2026? Resposta passa por cenários suscetíveis a variações de fatores.

Quem subirá a rampa do Planalto em 2026? Resposta passa por cenários suscetíveis a variações de fatores.Ricardo Stuckert/PR

 

Desafio para mudar

Entre os eleitores de Lula, 81% dizem que a decisão já está tomada. Entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL), o percentual é de 74%. A fidelidade ao voto de 2022 também se mantém elevada: 84% dos que dizem ter votado em Lula no segundo turno afirmam que votarão novamente no petista; entre os que votaram em Jair Bolsonaro, 69% declaram voto em Flávio. Em eventual segundo turno, Lula aparece com 47%, contra 40% do senador.

Os números reforçam a imagem de uma eleição não apenas polarizada, mas resistente a deslocamentos amplos de voto. Isso aumenta o peso dos independentes, da abstenção, da rejeição, dos palanques estaduais e de fatos capazes de alterar o ambiente da campanha. Economia real, segurança pública, TSE, inteligência artificial, operações policiais e declarações de atores externos podem ter impacto maior justamente porque parte expressiva do eleitorado parece pouco disposta a mudar de lado.

O calendário também impõe pressão. Convenções partidárias, registro de candidaturas e início da propaganda oficial vão transformar negociações de bastidor em campanha aberta. A partir daí, alianças, vices, palanques e crises internas ficarão mais expostos ao eleitor.

Veja dez fatores que podem definir a sucessão nos próximos 100 dias.

1. Economia real

Com a taxa de desemprego em queda, o principal desafio de Lula será transformar governo em voto. Para isso, precisará converter programas, obras, crédito, renda e políticas sociais em percepção de melhora concreta. Preço dos alimentos, emprego, juros, endividamento e acesso a serviços básicos tendem a pesar mais do que discursos nacionais.

Se houver sensação de melhora, Lula tende a reforçar a dianteira. Se prevalecerem queixas sobre custo de vida, insegurança ou dificuldade de acesso a crédito, a direita terá espaço para explorar desgaste.

Pesquisa Datafolha divulgada na última segunda-feira (22) mostrou que cresceu de 30%, em março, para 36% o índice de eleitores otimistas com a economia. No mesmo período, caiu de 35% para 26% a parcela dos que se declararam pessimistas.

2. Voto fiel, rejeição e eleitor independente

A pesquisa Indexa mostra que Lula e Flávio têm bases com alto grau de decisão. Isso reduz a margem para migrações amplas entre lulismo e bolsonarismo e aumenta a importância de quem ainda não fechou posição.

Em uma eleição de voto cristalizado, rejeição também ganha peso. Lula e Flávio não precisam apenas preservar suas bases; precisam reduzir resistência entre eleitores que rejeitam um dos polos, mas ainda podem decidir entre votar no adversário, anular, se abster ou apoiar uma candidatura alternativa.

Os independentes tendem a reagir a temas como economia, segurança, corrupção, estabilidade democrática e capacidade de governo. Uma crise bem explorada, uma operação policial de grande repercussão ou uma piora na economia pode custar mais caro justamente nesse grupo.

3. Segurança pública

A segurança pública tende a ocupar lugar central na reta final. O tema fala com periferias, mulheres, evangélicos, grandes cidades e eleitores independentes. Também permite à direita pressionar o governo federal, especialmente quando a campanha se aproxima das disputas estaduais.

Para Lula, o desafio será apresentar respostas concretas sem deixar que a oposição monopolize o assunto. Para Flávio, a segurança pode funcionar como eixo de mobilização, mas exigirá propostas que ultrapassem o discurso de confronto e dialoguem com eleitores menos ideológicos.

4. Unidade da direita

Na direita, o problema central é a unidade. Flávio Bolsonaro tenta se consolidar como herdeiro eleitoral de Jair Bolsonaro, mas ainda precisa demonstrar capacidade de falar além da base bolsonarista.

O senador sofreu desgaste após as revelações sobre pedidos de recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente. Flávio tentou enquadrar o episódio como negociação privada. Disse que o caso mostrava “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai” e afirmou: “Não ofereci vantagens em troca.”

O material apreendido nas investigações sobre o Banco Master ainda está sob análise, e novas revelações podem afetar oposição e governo. A relatoria das investigações no Supremo ficará com André Mendonça, a quem caberá conduzir pedidos e medidas eventualmente apresentados pela PF e pela PGR.

5. Michelle e os eleitorados sensíveis

A crise pública entre Michelle e Flávio Bolsonaro acrescentou outro fator de instabilidade. Em vídeo divulgado na quarta-feira (24), Michelle passou a falar com voz própria, especialmente para mulheres e evangélicos, dois públicos estratégicos para qualquer candidatura presidencial.

Ao criticar alianças regionais do PL e cobrar coerência ideológica, a ex-primeira-dama mostrou capacidade de interferir nos palanques e disputar autoridade dentro do bolsonarismo. Para Flávio, o episódio é sensível porque o obriga a reduzir danos justamente entre grupos nos quais precisa crescer ou evitar perdas.

Para Lula, mulheres e evangélicos também serão prioridade. A campanha governista deve tentar falar com esses públicos por meio de renda, programas sociais, proteção às famílias, combate à violência e diálogo religioso.

Flávio pediu desculpas a Michelle caso ela tenha se sentido ofendida, elogiou a atuação da madrasta à frente do PL Mulher e já sinalizou que busca uma mulher para compor a chapa como vice.

6. Alternativas que ainda não decolaram

O desgaste de Flávio não se converteu até agora em crescimento consistente de outros nomes da direita ou da centro-direita. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Aécio Neves (PSDB) aparecem fragmentados nas pesquisas e distantes dos dois polos principais.

Esse é um dos paradoxos da eleição: Flávio enfrenta desgaste, mas os demais pré-candidatos ainda não conseguiram ocupar o espaço de alternativa competitiva. Para Lula, isso mantém a disputa concentrada contra o bolsonarismo. Para a direita, aumenta a pressão por unidade antes do início da campanha oficial.

A escolha do vice, o peso dos governadores, o papel de Jair Bolsonaro e a capacidade do PL de conter crises internas serão decisivos para saber se a direita chegará ao primeiro turno como bloco organizado ou campo dividido.

7. Operações policiais

As investigações em torno do Banco Master são hoje um dos fatores de maior imprevisibilidade da sucessão. O caso já atingiu personagens de campos distintos. De um lado, Flávio Bolsonaro foi associado aos pedidos de recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro. De outro, o senador Jaques Wagner, aliado de Lula, deixou a liderança do governo no Senado após entrar na mira da Operação Compliance Zero.

Nesta semana, sob pressão, Wagner deixou a liderança após reunião com Lula. A decisão buscou reduzir o desgaste sobre o Planalto em meio ao início da corrida eleitoral.

Esse tipo de investigação tem potencial para produzir desgaste cruzado. Se avançar sobre a oposição, pode comprometer Flávio. Se atingir aliados do governo, pode alimentar o discurso de corrupção e dificultar a articulação política no Congresso.

8. TSE, IA e guerra digital

A eleição já começou no Tribunal Superior Eleitoral. PT e PL transformaram o TSE em uma frente paralela da pré-campanha, com ações sobre propaganda antecipada, pesquisas, vídeos, inteligência artificial e conteúdos manipulados.

O uso de IA será uma das principais novidades da disputa. Vídeos sintéticos, deepfakes, personagens digitais e conteúdos descontextualizados podem circular com velocidade maior do que a capacidade de reação das campanhas e da Justiça Eleitoral.

O TSE terá de decidir rapidamente quando se trata de sátira, propaganda irregular, manipulação ou desinformação com potencial de enganar o eleitor. Em uma disputa de voto mais cristalizado, a guerra digital pode mobilizar bases, desestimular adversários ou afetar indecisos.

9. Trump e risco externo

Outro fator de turbulência está fora do país. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a tratar o Brasil em tom mais duro, em meio ao avanço da direita na América do Sul e à aproximação com a família Bolsonaro. A fala de que o Brasil seria um grande objetivo dos Estados Unidos, somada à declaração de que não é fã de Lula nem desgosta dele e de que o brasileiro seria “volátil”, marca uma inflexão em relação a momentos anteriores de maior cordialidade.

Lula reagiu com discurso de soberania. “Não se meta nas eleições no Brasil”, disse o presidente, ao defender que a disputa brasileira seja tratada como assunto interno.

A tensão pode ter efeito duplo. Para Lula, qualquer sinal de pressão externa pode reforçar o discurso de defesa da democracia e da soberania nacional. Para a direita, a aproximação com Trump pode funcionar como ativo junto à base bolsonarista, mas também abre flanco para acusações de alinhamento a interesses estrangeiros.

10. Palanques, prefeitos e Congresso

Os palanques estaduais completarão o tabuleiro. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Pará terão peso decisivo na eleição presidencial e nas disputas para governador, Senado e Câmara.

Um palanque forte entrega prefeitos, deputados, militância, estrutura e discurso local. Um palanque dividido pode neutralizar a campanha nacional. O caso do Ceará, com a crise em torno da aliança do PL com o grupo de Ciro Gomes, mostrou como decisões estaduais podem produzir impacto nacional.

Os prefeitos eleitos em 2024 também serão peças centrais. Eles chegam a 2026 com máquinas municipais, bases organizadas e influência direta fora das capitais. Em uma eleição de margens apertadas, a capilaridade local pode fazer diferença.

A disputa pelo Senado terá peso próprio. Como duas vagas estarão em jogo por estado, a eleição pode redesenhar a correlação de forças do próximo governo. Para o eleitorado mais politizado, temas como STF, anistia, dosimetria, segurança pública e combate à corrupção podem transformar a disputa ao Senado em extensão da corrida presidencial.

O que está em jogo

A 100 dias da eleição, Lula precisa preservar vantagem, conter desgastes e transformar entregas em voto. Flávio precisa reduzir danos, manter a direita unida e convencer eleitores fora da base bolsonarista. Os demais pré-candidatos precisam mostrar que ainda podem sair da condição de alternativas laterais.

O alto grau de decisão entre eleitores de Lula e Flávio indica uma eleição com bases firmes e pouca margem para conversão direta entre os dois campos. Por isso, os próximos três meses serão menos uma disputa por grandes migrações e mais uma batalha por independentes, abstenção, rejeição, palanques, narrativa e resistência a crises.

Fonte: Congresso em Foco

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